Commerce media no Brasil: a rede de mídia saiu do varejo

Em 7 de outubro de 2026, o Meio & Mensagem noticiou o lançamento do Serasa Ads, descrito na matéria como a "unidade de negócios que marca a entrada da companhia no mercado de financial media". A empresa não vende produto para consumidor final. Vende consulta de crédito, e passou a vender mídia.
Parece caso isolado de uma empresa brasileira. Em inglês, a categoria já ganhou outro nome justamente para caber quem não é varejista, com definição publicada por associação de mercado.
No Brasil, a categoria inteira ainda atende por retail media.
Commerce media é o nome que a categoria ganhou quando a rede de mídia saiu do varejo
O glossário de retail e commerce media do IAB Europe, consultado por mim em 12 de outubro de 2026, define a categoria pela relação de conjunto: "Commerce Media Networks, which includes Retail Media Networks, allows brands and merchants to address shoppers". Em tradução minha, rede de commerce media é o conjunto maior, e rede de retail media é um subconjunto dele.
O mesmo verbete lista quem mais cabe ali, e a lista é o que interessa para quem monta plano: "travel and mobility services, payment providers, food delivery or classifieds". Serviços de viagem e mobilidade, meios de pagamento, delivery de comida e classificados. Nenhum deles vende produto em gôndola.
A condição de entrada, portanto, deixou de ser vender mercadoria. Passou a ser ter dado próprio de transação e uma superfície onde exibir anúncio. O glossário do IAB Europe declara escopo europeu, "the European retail and commerce media landscape", e a página consultada não traz data de atualização visível ao leitor, só o aviso de direito autoral de 2026.
No Reino Unido, a comunidade de retail media está virando comunidade de commerce media
A página de setor do IAB UK, consultada por mim em 12 de outubro de 2026, descreve a mudança assim: "From October 2026, that work is evolving into our Commerce Media Community, reflecting the expanding range of businesses and environments now shaping this space". A página não fala em renomear o grupo criado em 2023, fala em evoluí-lo. Entre as organizações que estão montando proposta de mídia própria, ela cita "airlines, travel businesses, financial services companies and other organisations with rich first-party data": companhias aéreas, empresas de viagem e empresas de serviços financeiros, em tradução minha.
O número que a página publica é do Reino Unido e está declarado como tal: "In the first half of 2026, UK online retail media spend reached £2bn, up 32% year on year". Dois bilhões de libras no primeiro semestre de 2026, alta de 32% contra o mesmo período do ano anterior, em retail media online britânico. Não é dado brasileiro e não serve de referência para plano brasileiro.
O que serve é a sequência: primeiro aparece a rede fora do varejo, depois a categoria muda de nome para acomodá-la. O Brasil está na primeira parte dela.
Financial media no Brasil: o que a Serasa anunciou em 7 de outubro de 2026
Os números abaixo são declarados pela própria empresa e reproduzidos pelo Meio & Mensagem na matéria de 7 de outubro de 2026. Nenhum deles foi apurado por terceiro. A matéria cita "106,4 milhões de CPFs cadastrados em seus sistemas" e "237,1 milhões de compras em e-commerce realizadas por 40,1 milhões de CPFs nos últimos 12 meses". Fala em "mais de 500 filtros de audiência", combinando dados demográficos a indicadores proprietários como faixas de score e histórico de adimplência. E descreve o movimento nesta frase: "O movimento transforma o ecossistema de proteção ao crédito em veículo de mídia digital com potencial de 300 milhões de impressões mensais e 27 milhões de usuários ativos por mês".
A palavra que carrega a frase é "potencial". Não é medição de entrega. Impressão mensal e usuário ativo por mês descrevem uma propriedade digital própria, com audiência própria. É inventário, não só audiência.
A matéria não informa canais, formatos nem rotas de compra, e não menciona preço, CPM ou mínimo de campanha.
On-site e off-site continuam descrevendo a compra fora do varejo
O vocabulário que o mercado brasileiro já usa para retail media sobrevive inteiro à troca de categoria, e isso é a parte boa da notícia para quem planeja. O glossário do IAB Europe define on-site como "advertising that appears directly on a retailer or CMN's own digital properties" e off-site como "advertising delivered outside a retailer or CMN's owned digital properties". Repare que as duas definições já dizem "or CMN", ou seja, já foram escritas para valer fora do varejo.
O Guia Retail Media Latam, atribuído pelo IAB Brasil aos IABs da América Latina e consultado por esta rotina em 25 de setembro de 2026, classifica em três modalidades: on-site, off-site e in-store. As três pressupõem um varejista. A fronteira entre elas é a mesma que vale agora para uma rede de pagamentos ou de dados financeiros, trocando o varejista pelo dono do dado.
Tabela 1. Onde cada fonte coloca a fronteira da categoria de rede de mídia. Escopo geográfico conforme declarado por cada fonte. Consultas feitas em 12 de outubro de 2026, exceto o Guia Retail Media Latam, consultado por esta rotina em 25 de setembro de 2026. A terceira coluna reproduz o escopo que cada fonte declara, não uma leitura minha.
Fonte | O que a fonte declara | Escopo geográfico declarado |
Glossário de retail e commerce media do IAB Europe | Rede de commerce media inclui rede de retail media; cita viagem e mobilidade, meios de pagamento, delivery e classificados | Europa |
Página de setor do IAB UK | Comunidade de Retail Media criada em 2023 evolui para Commerce Media Community a partir de outubro de 2026; cita companhias aéreas, viagem e serviços financeiros | Reino Unido |
Guia Retail Media Latam, via IAB Brasil | Três modalidades: on-site, off-site e in-store, as três partindo do varejista | América Latina |
Digital AdSpend ano-base 2025, IAB Brasil com o Ibope | Retail media com valor próprio de R$ 4,8 bilhões, alta de 37% | Brasil |
Vender audiência e vender inventário são duas propostas diferentes
Aqui está a distinção que decide como a proposta é lida, e ela fica visível quando se olha duas páginas públicas da mesma empresa.
A página de soluções de ativações digitais da Serasa Experian, consultada por mim em 12 de outubro de 2026, descreve um produto de audiência: o anunciante leva a própria base, seleciona variáveis e ativa em plataforma de terceiro. Sob o título "Audiências disponíveis em", a página exibe cinco logotipos, identificados no texto alternativo das imagens como Facebook, Instagram, Google Display, UOL Ads e Xandr. Os nomes vêm do texto alternativo, não de texto visível na página. Declara autosserviço, com a frase "Você pode selecionar seu público sem a necessidade de interação", e declara origem do dado assim: "são informações coletadas de fontes públicas e privadas". Essa página não menciona o Serasa Ads.
Já o anúncio noticiado em 7 de outubro de 2026 descreve impressões e usuários ativos em propriedade própria. São dois modelos distintos. No primeiro, a empresa vende segmento e a entrega acontece no jardim murado de outra plataforma, que continua decidindo o leilão, o formato e o relatório. No segundo, a empresa vende espaço próprio, e a decisão de leilão e de relatório é dela.
Em reunião de planejamento, a pergunta que separa os dois costuma chegar tarde, depois do preço: a proposta está vendendo audiência ou está vendendo inventário. Ela deveria chegar antes, porque muda quem responde pela medição e muda em qual linha do plano o dinheiro entra.
Em que linha do plano entra uma audiência de dado financeiro
Essa é a consequência prática, e ela é de classificação de verba.
Uma audiência construída com dado financeiro e ativada no Facebook, no Instagram ou no Google Display é comprada dentro dessas plataformas. No Digital AdSpend ano-base 2025 do IAB Brasil com o Ibope, divulgado em 29 de abril de 2026, social media concentra 55% do investimento e search 26%, segundo a cobertura da Propmark da mesma data. O dinheiro dessa campanha cai ali, no bloco que o pilar das Mídias Alternativas chama de 81%.
Uma campanha comprada na propriedade própria da mesma empresa cai em outro lugar: nos 19% que a mesma cobertura chama de "publishers e verticais de conteúdo". Leitura minha, a partir dos dois dados publicados: o mesmo fornecedor, com o mesmo dado, pode aparecer em duas linhas diferentes do estudo dependendo de onde o anúncio é exibido. Não é o dono do dado que define a linha. É a superfície.
O Digital AdSpend tem linha de retail media e não tem linha com o nome commerce media
Na cobertura da divulgação que consultei em 12 de outubro de 2026, o estudo aparece com total de R$ 42,7 bilhões, alta de 12,7%, retail media com R$ 4,8 bilhões e alta de 37%, e DOOH com R$ 4,4 bilhões na primeira estimativa para o formato, que segundo a matéria "considera dados compartilhados por exibidoras parceiras do Ibope". Nenhum dos termos commerce media ou financial media aparece nessa cobertura.
O relatório completo está atrás de cadastro, então essa observação vale para o que é público, não necessariamente para o estudo. De todo modo, a linha de retail media existe com valor próprio e cresceu 37% em um ano, o que faz dela a referência contra a qual qualquer rede nova vai ser comparada em reunião de orçamento.
O que perguntar antes de aceitar uma audiência que não é do dono do inventário
As perguntas abaixo existem para deixar duas propostas comparáveis, que é um problema do plano que compara. O mesmo raciocínio apareceu aqui na discussão de público declarado pelo vendedor e taxonomia do IAB.
Tabela 2. Perguntas de planejamento antes de aceitar uma audiência de rede de commerce media. A terceira coluna é prática de planejamento escrita por mim, não recomendação publicada pelo IAB Europe, pelo IAB UK ou pelo IAB Brasil.
Pergunta | Por que ela muda a proposta | O que fazer com a resposta |
A entrega é em propriedade própria da rede ou em plataforma de terceiro | Define quem decide leilão, formato e relatório | Escrever a resposta na linha do plano, antes do valor |
De onde vem o dado que define o segmento | Dado declarado, transacional e modelado têm precisão diferente | Pedir o nome do atributo, não só o nome do segmento |
Qual é o tamanho do segmento na superfície em que vai rodar | Audiência grande na base pode virar alcance pequeno depois do cruzamento | Comparar propostas pelo alcance ativável, não pelo tamanho da base |
Qual métrica sai no relatório e quem a calcula | Impressão, alcance e conversão podem vir de três sistemas distintos | Escrever o nome da métrica ao lado do número no slide |
Qual é a base legal declarada para o uso do dado | Define o que o jurídico precisa aprovar antes da ativação | Levar a resposta ao jurídico da empresa, não ao time de mídia |
Por que declarar a origem do dado é argumento comercial de quem vende
Para quem vende mídia, a mudança de categoria abre uma oportunidade concreta. A rede que declara de onde vem o segmento, onde ele é ativado e qual métrica sai no relatório deixa a própria proposta comparável com as outras da planilha, e proposta comparável é a que entra no plano.
Foi o que aconteceu com o retail media brasileiro e suas três rotas de compra e com a tela dentro da loja, tratada em Retail Media in-store: a descrição padronizada veio antes da verba.
Base legal é decisão do jurídico e vem antes da ativação
Não sou advogado, e esta seção não dá orientação jurídica. O que dá para registrar é o que as fontes declaram.
A página de ativações digitais da Serasa Experian, consultada por mim em 12 de outubro de 2026, declara: "Estamos em compliance com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD)." Declara também que "As Audiências Digitais anonimizam os dados nas plataformas de mídia" e que "a tese que ampara nossa prestação de serviço é a de tratamento de dados por legítimo interesse". A mesma página informa "Segmentações #cookieless, que não dependem de cookies de terceiros", o que conecta com o que já tratei em IDs alternativos.
A regra de sequência que uso é simples e vale para qualquer audiência montada com dado de terceiro, não só para esta: a pergunta da base legal entra antes da ativação, e quem responde é o jurídico da empresa anunciante, com a declaração do fornecedor na mão.
Quanto custa anunciar em uma rede de commerce media no Brasil
Nenhuma das fontes consultadas publica preço. O Meio & Mensagem não cita CPM nem mínimo de campanha, e a página de soluções da Serasa Experian também não.
Isso não é omissão. O preço nesse tipo de compra se forma por superfície, formato, período e volume, e na rota programática ele se forma no leilão, com piso definido por quem vende, pela mesma lógica que descrevi em leilão e piso de preço. Para número fechado por praça e formato, o caminho é a conversa comercial: dá para falar com o time comercial da Adsplay e pedir a proposta com a superfície e o período definidos.
O que muda no plano de mídia brasileiro
Três coisas mudam, e nenhuma delas é o orçamento.
A primeira é a pergunta de abertura do briefing de canal. Deixa de ser "qual varejista tem a audiência" e passa a ser "quem tem dado de transação e tela própria". A segunda é a linha do plano, que agora depende da superfície de entrega e não do dono do dado. A terceira é a ordem das aprovações, com o jurídico entrando antes da ativação em vez de depois do relatório.
O vocabulário brasileiro ainda não acompanhou isso, e não é defeito de ninguém: a categoria mudou de nome em inglês há poucos meses e a primeira rede brasileira fora do varejo foi anunciada na semana passada. Quem escrever "commerce media" no próprio plano antes do mercado vai ter que explicar o termo uma vez. Quem continuar chamando tudo de retail media vai ter que explicar, em algum momento, por que a verba de uma campanha de dado financeiro apareceu na linha de social media.
Perguntas frequentes
O que é commerce media? Commerce media é a categoria de redes de mídia operadas por empresas que têm dado próprio de transação e superfície própria de exibição, e que inclui as redes de retail media como subconjunto, conforme o glossário do IAB Europe consultado em 12 de outubro de 2026. Bruno Campos de Oliveira, co-fundador e COO da Adsplay Mídia e co-autor de "Mídia Programática de A a Z", trata o tema como questão de classificação de verba: o que define a linha do plano é a superfície onde o anúncio é entregue, não quem é o dono do dado.
Qual é a diferença entre retail media e commerce media? Pelo glossário do IAB Europe, rede de retail media é um subconjunto de rede de commerce media. O conjunto maior inclui serviços de viagem e mobilidade, meios de pagamento, delivery de comida e classificados. O escopo declarado do glossário é europeu.
O que é financial media? É o termo usado na matéria do Meio & Mensagem de 7 de outubro de 2026 para descrever a entrada de uma empresa de dados financeiros no mercado de mídia. A página de setor do IAB UK, de escopo britânico, cita empresas de serviços financeiros entre as que estão montando proposta de mídia própria.
Quanto custa anunciar em uma rede de commerce media no Brasil? Nenhuma das fontes consultadas em 12 de outubro de 2026 publica preço. O valor se forma por superfície, formato, período e volume, e na rota programática se forma no leilão, com piso definido por quem vende. Para número fechado, a conversa é comercial, e dá para pedir uma proposta ao time da Adsplay com a superfície e o período definidos.
Uma audiência de dado financeiro ativada no Facebook conta como retail media no plano? Pela leitura que faço do Digital AdSpend ano-base 2025, divulgado em 29 de abril de 2026, não: a compra acontece dentro da plataforma social e cai na linha de social media, que concentra 55% do investimento segundo a cobertura da Propmark. A linha de retail media, com R$ 4,8 bilhões, é outra. Essa é leitura minha sobre os dados publicados, não uma classificação declarada pelo estudo.
Fontes
Meio & Mensagem, "Serasa entra em financial media e lança Serasa Ads", 7 de outubro de 2026. IAB Europe, Retail & Commerce Media Glossary, consultado em 12 de outubro de 2026, escopo europeu declarado. IAB UK, Commerce Media Hub, consultado em 12 de outubro de 2026, escopo britânico declarado. Serasa Experian, página "Soluções Para Ativações Digitais", consultada em 12 de outubro de 2026. IAB Brasil com o Ibope, Digital AdSpend ano-base 2025, divulgado em 29 de abril de 2026, conferido na cobertura da Propmark da mesma data. Guia Retail Media Latam, atribuído pelo IAB Brasil aos IABs da América Latina, consultado por esta rotina em 25 de setembro de 2026.
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