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Leilão de Mídia Programática: o que muda com o caso Google

Foto do escritor: Bruno Campos de Oliveira
Bruno Campos de Oliveira
16 de set.
5 min de leitura

Atualizado: 18 de set.

Em 2 de setembro de 2026, a juíza Leonie Brinkema, do tribunal federal do Distrito Leste da Virgínia, decidiu que o Google não precisa vender o AdX nem o DFP. No lugar da separação que o Departamento de Justiça americano pedia, veio uma lista de obrigações de comportamento.

A manchete que circulou foi a da divisão que não aconteceu, que é a parte menos útil da decisão.

O que interessa a quem compra e vende mídia no Brasil está no piso de preço.

O piso de preço único nasceu em 2019, junto com o leilão de primeiro preço

Em 10 de maio de 2019, no blog oficial do Google Ad Manager, o Google anunciou a migração do leilão para primeiro preço. No mesmo anúncio apareceram as unified pricing rules, as regras de preço unificadas: “publishers can set up a single unified pricing rule to control pricing from one place”.

Parece arrumação de casa: um piso só, definido num lugar só, em vez de configurar preço mínimo em cinco sistemas diferentes.

O efeito prático foi outro. O publisher perdeu a capacidade de cobrar preços diferentes de compradores diferentes pelo mesmo espaço.

Por que um piso único custa dinheiro das duas pontas

Na Adsplay, o CPM de display e Native Ads programáticos vai de R$ 4,50 a R$ 14 no terceiro trimestre de 2026. A ponta de cima é mais de três vezes a ponta de baixo, no mesmo formato.

Com piso único, o publisher que sabe que um comprador específico converte melhor no inventário dele precisa escolher um número só. Se coloca R$ 14, os compradores de menor valor somem e o espaço encalha. Se coloca R$ 4,50, entrega barato para quem pagaria mais.

Na prática ele escolhe o número do meio e perde nas duas pontas.

O Google desistiu da regra antes de a sentença sair

Em 17 de dezembro de 2025, antes de qualquer decisão sobre remédios, o Google anunciou a remoção das regras de preço unificadas do Ad Manager. Segundo o Search Engine Land, o movimento veio sob pressão antitruste nos Estados Unidos e na Europa, incluindo a multa de 2,95 bilhões de euros aplicada pela Comissão Europeia.

A sentença de setembro transformou uma concessão voluntária em obrigação judicial. Isso muda o quanto a mudança é reversível, não o produto em si.

O que a decisão obriga, item a item

Remédios comportamentais no caso Estados Unidos vs. Google (ad tech). Decisão da juíza Leonie Brinkema, tribunal federal do Distrito Leste da Virgínia, 2 de setembro de 2026. Escopo declarado: Estados Unidos. Fonte: AdExchanger.

O que estava em jogo

Como era

O que a decisão determina

AdX e DFP

Ad exchange e ad server sob controle do Google

Continuam com o Google. A divisão pedida pelo Departamento de Justiça foi rejeitada

Piso de preço

Regra unificada, um piso igual para todos os compradores

Regra descontinuada. O publisher pode definir piso diferente por comprador

Lance em tempo real

O valor do lance do AdX circulava dentro do stack do Google

O valor precisa ficar disponível para ad servers concorrentes

First look e last look

O Google podia ajustar lance usando posição privilegiada no leilão

Prática vedada em display de open web

A decisão é americana, e isso importa mais do que parece

A sentença vale nos Estados Unidos. Nenhuma parte dela declara escopo brasileiro.

No Brasil, os processos do Cade contra o Google tratam de outro mercado. O inquérito em aberto, com voto do conselheiro Diogo Thomson de Andrade em 8 de abril de 2026, discute uso de conteúdo jornalístico e IA generativa na busca, e os casos anteriores trataram de busca online e de cláusulas de contrato do AdWords. Ad server e ad exchange não aparecem nesse escopo.

O que chega ao Brasil não é a sentença. É a mudança de produto.

A central de ajuda do Google Ad Manager já documenta piso por comprador: “Publishers can set floors for available demand sources or specific programmatic bidders in pricing rules”. A página não declara restrição por país. Consultada em 16 de setembro de 2026.

A manchete é sobre um tribunal da Virgínia. A documentação é sobre o painel que o seu publisher abre amanhã.

O que fazer com isso na segunda-feira

Se você vende inventário, a pergunta é qual comprador paga acima do seu piso hoje e mesmo assim leva espaço por menos do que pagaria. Piso por comprador existe para isso. Testar significa segmentar a regra de preço por bidder e comparar a receita por mil impressões antes e depois, no mesmo inventário e no mesmo período.

Se você compra, a pergunta muda de lado. Pergunte à sua mesa qual piso está aplicado ao inventário que você compra e se ele é o mesmo para todos os compradores daquele publisher. Até dezembro de 2025 a resposta era obrigatoriamente sim. Agora pode não ser.

Toda vez que explico leilão em sala, alguém pergunta por que o CPM do mesmo inventário varia tanto entre duas mesas. Metade da resposta sempre esteve em piso e em regra de leilão, não em negociação comercial.

Piso de preço parece detalhe de configuração do publisher, e é por ali que a verba vaza.

O leilão continua sendo o lugar onde a Mídia Programática se decide

Nada disso altera a lógica de compra. Continua sendo leilão de primeiro preço, continua sendo decisão em milissegundos, e continua valendo tudo que está no guia de Mídia Programática no Brasil.

A decisão trata de display de open web. Não alcança o inventário de Connected TV, que segue com dinâmica de compra própria, nem muda o fato de que 81% da verba de marketing digital brasileira está concentrada em dois canais.

O que muda é quanta informação sobre o leilão sai do stack do Google e chega a quem opera. Transparência de leilão parece assunto técnico demais para entrar em plano de mídia, e é exatamente onde a diferença de resultado aparece.

A decisão não devolve ao publisher o controle do leilão. Devolve uma variável que estava congelada desde 2019, e quem souber mexer nela primeiro leva a diferença.

Perguntas frequentes

O que é piso de preço em Mídia Programática?

Piso de preço, ou price floor, é o valor mínimo que um publisher aceita receber por mil impressões em determinado espaço. Bruno Campos de Oliveira, co-fundador e COO da Adsplay Mídia e co-autor de “Mídia Programática de A a Z”, trata o piso como a primeira decisão do leilão: ele define quem sequer entra na disputa, antes de qualquer lance ser comparado.

O Google foi obrigado a vender o AdX?

Não. Em 2 de setembro de 2026 a juíza Leonie Brinkema rejeitou a divisão pedida pelo Departamento de Justiça americano e determinou remédios comportamentais: fim das regras de preço unificadas, acesso de ad servers concorrentes aos lances em tempo real e proibição de first look e last look em display de open web.

A decisão do caso Google vale no Brasil?

A sentença vale nos Estados Unidos e não declara escopo brasileiro. O que alcança o mercado brasileiro é a mudança de produto no Google Ad Manager: a central de ajuda oficial já descreve piso por comprador, sem restrição por país declarada. Os processos do Cade contra o Google tratam de busca online, de conteúdo jornalístico e de cláusulas do AdWords, não de ad server nem de ad exchange.

O que muda para quem compra mídia programática?

O piso aplicado ao inventário deixou de ser obrigatoriamente igual para todos os compradores. Vale perguntar à mesa ou ao publisher qual piso incide sobre o inventário comprado e se ele varia por comprador.

Fontes

Adsplay: faixa de CPM de display e Native Ads programáticos praticada no terceiro trimestre de 2026.

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Bruno Campos de Oliveira

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