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Compra de mídia agêntica: o padrão novo mira os 19% da verba

Foto do escritor: Bruno Campos de Oliveira
Bruno Campos de Oliveira
23 de set.
11 min de leitura

Em 22 de setembro de 2026 o IAB Tech Lab abriu para comentário público uma especificação chamada OpenProposal, dentro da versão 3.0 do AAMP, sigla de Agentic Advertising Management Protocols. O prazo de comentário vai até 22 de outubro de 2026. O que está em consulta não é um formato de anúncio nem um jeito novo de dar lance: é a papelada.

Mais precisamente, é o trecho do processo que vai do brief do comprador até o compromisso de compra. Aquele pedaço que ninguém automatizou porque ele nunca foi software, foi e-mail.

O AAMP 3.0 padroniza a etapa que ainda era humana

O comunicado do IAB Tech Lab de 22 de setembro de 2026 é explícito sobre o buraco que pretende tapar: existiam padrões para quase todas as etapas da compra de mídia digital, mas o caminho do RFP até o compromisso de compra continuava sendo tocado por fluxo manual. Nas palavras de Anthony Katsur, CEO do IAB Tech Lab, no mesmo comunicado, "as agents take on more of the work in media planning and buying, the industry needs a common framework for the RFP and proposal process".

O OpenProposal é a peça que preenche esse trecho. Ele define como um vendedor descreve os produtos de mídia que tem para vender e como responde ao brief de um comprador, num formato que um agente de software consegue ler e comparar. O repositório público da especificação descreve o objeto como "the descriptive specification for what is being bought and sold, engineered so a buying agent can parse and evaluate it at machine speed".

Repare no verbo. O agente lê e avalia a proposta; a compra em si continua sendo executada pelos protocolos que já existem.

As sete etapas do ciclo de vida de mídia, na ordem do padrão

O AAMP 3.0 organiza a compra em sete etapas. Duas delas já são executadas por especificações publicadas há anos; as outras cinco são o território que o OpenProposal entra para cobrir.

As sete etapas do ciclo de vida de mídia no AAMP 3.0, conforme o comunicado do IAB Tech Lab de 22/09/2026. Escopo: especificação global, sem recorte de mercado declarado. A terceira coluna é leitura minha, não classificação publicada pelo IAB Tech Lab.

Etapa

O que acontece

Já existia padrão?

Publish

O vendedor publica um catálogo de pacotes públicos e guarda parte do inventário para proposta customizada

Não

Discover

O agente comprador recupera os pacotes públicos ou envia um brief completo para receber proposta customizada

Não

Compare

O agente comprador avalia e classifica as oportunidades contra o brief declarado

Não

Qualify

O agente checa disponibilidade e aderência ao público, ao período e aos requisitos do plano

Parcial, via disponibilidade das plataformas

Negotiate

Os agentes negociam termos customizados mantendo referência à oferta publicada

Não

Bind & Execute

A transação é executada na infraestrutura existente

Sim: OpenRTB 2.6, OpenDirect 2.1 e Deals API

Report

O desempenho circula pelas especificações de relatório já existentes

Sim

A leitura prática é que o padrão novo mora inteiro na frente do funil de negociação. Quando o agente chega em Bind & Execute, ele cai em cima de trilho conhecido: o OpenRTB, que o IAB Tech Lab descreve como "programmatic real-time bidding protocol" na versão 2.6.x, e o OpenDirect, descrito como "programmatic guaranteed API specification" na versão 2.1. Quem opera Mídia Programática no Brasil já vive nesses dois trilhos todos os dias.

No Brasil, a etapa de proposta só existe em 19% da verba

Aqui entra o recorte que muda a conversa. Segundo o Digital AdSpend ano-base 2025 do IAB Brasil com a Kantar Ibope Media, divulgado em 29 de abril de 2026, o investimento em mídia digital no Brasil foi de R$ 42,7 bilhões, com alta de 12,7%, repartido em 55% para social media, 26% para search e 19% para publishers.

Nas plataformas de autosserviço em que social media e search são comprados, não existe etapa de proposta. Você entra no painel, define verba, período e público, e o leilão resolve o resto. Não há brief para responder nem termo para negociar, então não há nada para padronizar ali.

Os 19% de publishers são outra coisa. É neles que vivem as Mídias Alternativas: Connected TV, Retail Media, DOOH, Áudio Digital e Native Ads. E é nessa fatia que a etapa de proposta existe inteira, com brief, media kit, disponibilidade, período, praça e negociação de preço.

Ou seja: a especificação que o IAB Tech Lab colocou em consulta pública trata da etapa que, no Brasil, só existe dentro dos 19%. É a fatia em que a proposta comercial ainda é um documento trocado entre pessoas, e é onde o padrão teria efeito prático.

Por que um media kit em PDF não passa na etapa Publish

A etapa Publish parece a mais burocrática das sete e é a que decide se as outras acontecem. Se o inventário do vendedor não está publicado num formato que o agente consegue recuperar, ele não entra na etapa Compare. E não entrar em Compare não é perder o leilão. É não ser considerado.

Um media kit em PDF descreve o produto para um ser humano. Ele mistura texto de vendas, imagem de referência, faixa de preço sujeita a negociação e observação de rodapé. Um agente de compra não extrai disso um objeto comparável.

Isso reposiciona uma pergunta que, em reunião de planejamento, costuma ser tratada como detalhe de marketing do fornecedor: em que formato o seu inventário está descrito. Deixou de ser material de venda e virou pré-requisito de descoberta.

Sem herança: cada item de linha carrega os próprios termos

O repositório público da especificação declara três princípios de desenho, e o primeiro é o mais estranho para quem monta plano de mídia: ausência de herança. Cada item de linha é autossuficiente.

Quem opera a estrutura de campanha de uma DSP está acostumado ao contrário. Campanha define, pedido de inserção herda, item de linha herda de novo. Na proposta legível por agente isso não vale: o item de linha declara os próprios termos e pode ser avaliado sozinho, sem que o agente precise reconstruir o documento inteiro para entender o que está comprando. A proposta fica maior e repetitiva. Em troca, fica comparável linha a linha.

Os marcadores de mutabilidade dizem onde o agente pode decidir sozinho

O segundo princípio do repositório são os marcadores de mutabilidade, em sete tipos, que indicam se um agente comprador pode agir unilateralmente sobre determinado campo. O terceiro é o que o repositório chama de composição como satisfação de restrições: dos 71 campos da especificação, apenas 3 exigem interação com a contraparte.

Esse número é a tese técnica do documento. Se 68 dos 71 campos podem ser resolvidos sem conversa, o que sobra de negociação humana é pequeno e específico. É a resposta mais concreta que existe hoje para a pergunta de até onde a máquina decide sozinha na compra de mídia. Com a ressalva de que 71 campos e 3 pontos de contato é o desenho proposto, em rascunho aberto a comentário, não uma medição de como o mercado opera.

O que o IAB Brasil já traduziu do Tech Lab, e o que ainda não

Padrão do IAB Tech Lab não chega ao Brasil por decreto. Ele chega pelo grupo de trabalho do IAB Brasil que publica o material em português e pelo mercado que decide implementar.

Conteúdos do IAB Tech Lab publicados na área do GT Tech Lab do IAB Brasil, conforme consulta em 23/09/2026. Escopo: publicações em português para o mercado brasileiro.

Publicação

Do que trata

Guia de Introdução às três Taxonomias do IAB Tech Lab

Vocabulário de conteúdo, público e anunciante

Guia sobre IDs de criativos e o Ad Creative ID Framework

Identificador persistente de criativo

Specification Adoption Program

Autodeclaração de quais especificações a empresa usa

Seller Defined Audiences

Público declarado pelo vendedor

ads.txt 1.1 e ads.cert

Autorização de venda de inventário

OpenRTB 2.6

Protocolo de lance em tempo real

Taxonomia de Conteúdo 3.0

Classificação de conteúdo

Na página que consultei em 23 de setembro de 2026 não há material sobre AAMP, OpenProposal ou compra agêntica. Isso é esperado, porque a especificação foi anunciada no dia anterior. Mas mostra o intervalo entre o anúncio de um padrão global e a existência de material em português sobre ele, que é onde o mercado brasileiro decide se implementa.

O caminho brasileiro já existente para a etapa Publish

Existe uma ponte pronta, e ela é anterior ao AAMP. O Specification Adoption Program do IAB Tech Lab, anunciado em 24 de março de 2023, permite que uma empresa declare publicamente quais especificações do Tech Lab usa na operação, pelo Transparency Center, de forma voluntária e gratuita. Segundo Leonardo Naressi, presidente do Comitê Tech Lab do IAB Brasil, em declaração ao Meio & Mensagem na época do lançamento, "mesmo sendo uma autodeclaração, o IAB Tech Lab solicita uma confirmação do uso dos padrões declarados por empresas parceiras do declarante para garantir a credibilidade e transparência do processo".

Para um vendedor de mídia brasileiro, a sequência de preparo para a etapa Publish é essa, e ela não depende de o AAMP virar norma: declarar as especificações que já implementa, manter o ads.txt correto, classificar o inventário por taxonomia em vez de por nome comercial próprio, e descrever cada produto com período, praça, formato, disponibilidade e mecanismo de transação em campo separado, não em parágrafo de PDF.

Nada disso é novidade tecnológica, e é o tipo de arrumação que a operação sempre adiou por não ter prazo. Agora tem prazo: a consulta pública fecha em 22 de outubro de 2026, e o IAB Australia, segundo declaração de Jonas Jaanimagi, Technology Lead da entidade, no mesmo comunicado, já abriu manifestação de interesse para um piloto do lado vendedor.

O número de compra agêntica que circula em português mede outra coisa

Um dado vem sendo repetido em português nas conversas sobre agentes e mídia, e ele merece leitura cuidadosa. O estudo da PHD com a WARC, divulgado pela PHD em 21 de julho de 2026, projeta que o gasto do consumidor facilitado por agentes de IA saia de US$ 944 bilhões em 2026 para US$ 3,35 trilhões em 2030, e que a categoria de mídia e publicações saia de US$ 73,3 bilhões para US$ 367,8 bilhões no período, alta de 401,8%.

O estudo mede gasto do consumidor intermediado por agente, em dez mercados, entre eles o Brasil, com metodologia de índice ponderado sobre dados da Acxiom. A categoria de mídia e publicações aí dentro é assinatura e publicação comprada pelo consumidor. Não é investimento publicitário, e não há recorte brasileiro publicado nas divulgações que consultei. É o mesmo cuidado que vale para qualquer número de IA aplicado a marketing: antes de levar o slide para a reunião, confira o que a linha do estudo está medindo e em que país.

Quanto custa comprar mídia com agente no Brasil hoje

A pergunta aparece sempre nesse ponto, e a resposta tem duas partes.

A primeira é que não existe preço de "compra agêntica" porque não existe produto de compra agêntica. O AAMP 3.0 padroniza como a proposta é descrita e trocada; o que você compra continua sendo impressão de CTV, tela de DOOH, espaço de Native Ads ou impressão de display, pelas mesmas rotas de sempre. O preço se forma como no leilão que já existe, e depende de praça, formato, período e volume.

A segunda é que, por isso mesmo, não há tabela pública de CPM para publicar. Faixa de preço de mídia no Brasil é proposta, e proposta se monta com o plano na mão. Quem precisa do número para um plano concreto resolve isso em uma conversa com o time comercial da Adsplay, não em um artigo.

O que ainda é rascunho, e o que isso muda no seu 2027

O próprio repositório do OpenProposal avisa que o documento é um rascunho, não uma norma ratificada do IAB Tech Lab, que o esquema legível por máquina ainda não foi publicado, e recomenda não construir sistema de produção contando com estabilidade. O comentário público está aberto a qualquer pessoa com conta no GitHub, sem exigência de ser associado.

Construir operação em cima de rascunho é casa alugada com móveis planejados. Você gasta, fica bonito, e a decisão de quando mudar não é sua.

O que dá para fazer sem risco é o trabalho que já valia antes: inventário classificado, especificações declaradas, produto descrito em campo e não em prosa. Se o AAMP 3.0 for ratificado como está, quem fez isso já está publicado. Se mudar, o trabalho continua servindo, porque ele é a mesma arrumação que a compra de Native Ads e a de Connected TV já exigem hoje.

O padrão não vai comprar mídia no seu lugar em 2027. Ele vai decidir se o seu inventário aparece na lista que o agente comparou.

Perguntas frequentes sobre compra de mídia agêntica

O que é compra de mídia agêntica? É a compra de mídia em que agentes de software executam etapas que antes eram humanas, como descobrir inventário, comparar propostas contra um brief e negociar termos. Bruno Campos de Oliveira, COO da Adsplay Mídia e co-autor de "Mídia Programática de A a Z", trata o tema como uma mudança de processo antes de ser uma mudança de tecnologia: o que está sendo padronizado é a proposta comercial, não o anúncio.

O que é o AAMP 3.0? É a versão 3.0 dos Agentic Advertising Management Protocols do IAB Tech Lab, anunciada em 22 de setembro de 2026. Ela organiza a compra de mídia em sete etapas, de Publish a Report, e introduz a especificação OpenProposal para cobrir o trecho entre o brief do comprador e o compromisso de compra.

O OpenProposal já pode ser usado em produção? Não. O repositório público da especificação declara que se trata de rascunho, não de norma ratificada, informa que o esquema legível por máquina ainda não foi publicado e recomenda explicitamente não construir sistemas de produção esperando estabilidade. O comentário público vai até 22 de outubro de 2026.

O AAMP 3.0 substitui o OpenRTB? Não. O próprio comunicado do IAB Tech Lab coloca a etapa Bind & Execute sobre a infraestrutura existente, e o repositório indica que o item de linha se conecta a OpenDirect 2.1, Deals API e OpenRTB 2.6 conforme o mecanismo de transação declarado. O padrão novo cobre o que vem antes do lance, não o lance.

Isso vale para o mercado brasileiro? A especificação é global e não declara recorte de mercado. Na consulta que fiz em 23 de setembro de 2026, a área do GT Tech Lab do IAB Brasil não tinha material publicado sobre AAMP ou OpenProposal, embora traga OpenRTB 2.6, ads.txt 1.1, ads.cert, Seller Defined Audiences, as taxonomias e o Specification Adoption Program. O caminho brasileiro de adoção passa por esse grupo.

Quem deveria se preparar primeiro, comprador ou vendedor? O vendedor de mídia, porque a primeira etapa do ciclo é Publish. Um comprador que ainda não tem agente não perde nada esperando. Um vendedor cujo inventário não está descrito em campo estruturado deixa de ser comparado no momento em que o primeiro comprador ligar o agente dele.

Quanto custa anunciar com compra agêntica no Brasil? Não existe preço próprio, porque não existe produto próprio: o AAMP padroniza a proposta, e o que se compra continua sendo impressão de CTV, DOOH, Native Ads, Áudio Digital ou display. O preço se forma no leilão ou na negociação direta e depende de praça, formato, período e volume, o que é o motivo de não haver tabela pública. Para um plano concreto, o caminho é falar com o time comercial da Adsplay.

Fontes

IAB Tech Lab, comunicado "IAB Tech Lab Introduces AAMP 3.0 to Standardize the RFP-to-Buy Process for Agentic Advertising", 22/09/2026, com citação de Anthony Katsur, CEO do IAB Tech Lab. IAB Tech Lab, repositório público da especificação OpenProposal, consultado em 23/09/2026: princípios de desenho, 71 campos, 3 pontos de interação com a contraparte, 7 marcadores de mutabilidade, mapeamento para OpenDirect 2.1, Deals API e OpenRTB 2.6, e aviso de rascunho. IAB Tech Lab, página de padrões, consultada em 23/09/2026: OpenRTB v2.6.x como "programmatic real-time bidding protocol" e OpenDirect v2.1 como "programmatic guaranteed API specification". IAB Brasil com Kantar Ibope Media, Digital AdSpend ano-base 2025, divulgado em 29/04/2026: R$ 42,7 bilhões, alta de 12,7%, 55% social media, 26% search e 19% publishers. IAB Brasil, área de conteúdos do GT Tech Lab, consultada em 23/09/2026. Meio & Mensagem, cobertura do lançamento do Specification Adoption Program do IAB Tech Lab, com declaração de Leonardo Naressi, presidente do Comitê Tech Lab do IAB Brasil, anúncio de 24/03/2023. PHD com WARC, estudo "From abundance to agents", comunicado da PHD de 21/07/2026: gasto do consumidor facilitado por agentes de IA, dez mercados (Austrália, Brasil, China, França, Alemanha, Índia, México, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos), metodologia de índice ponderado sobre dados da Acxiom. IAB Tech Lab, comunicado de 22/09/2026, declaração de Jonas Jaanimagi, Technology Lead do IAB Australia, sobre manifestação de interesse para piloto do lado vendedor.

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